Por que “marketeiro” virou sinônimo de picareta — e por que precisamos falar em MERCADÓLOGO?

Convido você a refletir comigo neste texto sobre como a imagem do marketing foi distorcida ao longo dos anos e como podemos resgatar a verdadeira essência da profissão.

Nos últimos anos, o termo marketeiro ganhou uma conotação negativa no Brasil. Para muitos, virou sinônimo de oportunista, manipulador, alguém que vende ilusões e desaparece quando o produto — seja ele um político, uma marca ou uma ideia — não entrega o que prometeu. Mas como chegamos a esse ponto? E mais importante: como resgatar a verdadeira essência do marketing e da profissão, livrando-a desse estigma?

Muito dessa visão distorcida começou com a ascensão do marketing político nas décadas de 80 e 90. Profissionais talentosos foram responsáveis por campanhas memoráveis, criando slogans marcantes, fortalecendo imagens públicas e conduzindo políticos ao poder. No entanto, quando os eleitos não correspondiam às expectativas ou não cumpriam promessas, a figura do marketeiro se tornava cúmplice, aos olhos do público, do fracasso ou da decepção. A impressão era clara: não era sobre conectar propostas reais às necessidades da população, mas sobre vender uma ilusão bem embalada.

A situação foi agravada pela visão simplista e reducionista que se consolidou em torno do marketing como uma mera ferramenta de persuasão. Para muitos, marketing passou a significar apenas “fazer vender”, a qualquer custo, sem compromisso com o valor real do produto ou serviço. A profundidade estratégica, analítica e científica do marketing foi sendo negligenciada, reduzida a um conjunto de truques para atrair consumidores desavisados.

Com a chegada do marketing digital, essa percepção não só persistiu, como ganhou novos contornos. O uso irresponsável de dados, o avanço das fake news, o uso de bots e manipulações algorítmicas fizeram crescer ainda mais a desconfiança. Muitos profissionais sérios atuaram (e continuam atuando) para coibir essas práticas. No entanto, o espaço foi invadido por amadores e aventureiros, sem preparo ou princípios, dispostos a tudo por engajamento fácil, conversões rápidas e resultados vazios. O dano à imagem da profissão foi inevitável.

Outro ponto fundamental dessa crise de percepção é a ausência de uma regulamentação forte na área. Enquanto profissões como medicina, direito ou engenharia possuem conselhos rígidos e códigos éticos que delimitam responsabilidades, o marketing carece de uma estrutura formal que regule a atuação dos seus profissionais. Isso facilitou a proliferação de “marketeiros” sem formação sólida ou compromisso com resultados sustentáveis, ampliando o terreno para práticas antiéticas.

Diante desse cenário, acredito que a solução passa não apenas por uma mudança prática, mas também terminológica e cultural. É hora de resgatarmos um termo mais fiel à seriedade da profissão: mercadólogo. O mercadólogo não é um vendedor de ilusões. Ele é um cientista do mercado. Alguém que estuda profundamente o comportamento humano, interpreta dados, antecipa tendências e propõe soluções fundamentadas e viáveis. Seu compromisso é com a criação de valor real, sustentável, conectando marcas, produtos e instituições às necessidades concretas da sociedade.

O marketing nasceu do encontro entre administração, economia, sociologia e psicologia. É uma ciência aplicada que exige análise de mercado, segmentação, precificação, distribuição e relacionamento — não um mero artifício de maquiagem ou manipulação midiática. Para que essa visão volte a ocupar o centro do debate, precisamos reforçar a importância da formação sólida e contínua, estabelecer códigos de conduta claros e estimular a adoção do termo mercadólogo como símbolo dessa virada ética e estratégica.

O marketing ético transforma realidades, gera inovação e conecta pessoas. O mercadólogo é peça central nesse processo. Está na hora de deixarmos para trás a imagem do marketeiro-picareta e reconhecermos o verdadeiro papel deste profissional: alguém comprometido com resultados reais e duradouros.

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