
O avanço da inteligência artificial tem proporcionado ferramentas para diversas áreas, democratizando o acesso a recursos antes disponíveis apenas para profissionais. No entanto, esse avanço também trouxe consigo desafios éticos importantes, especialmente no que diz respeito ao respeito às obras intelectuais e artísticas.
A polêmica envolvendo o uso do estilo artístico do Studio Ghibli em trends nas redes sociais, com desenhos gerados por IA, levanta diversas questões. Por um lado, a IA possibilita que qualquer pessoa explore estilos artísticos e crie imagens com poucos cliques, abrindo portas para novas formas de expressão e inspiração. Mas quando essa prática acaba transformando um trabalho original em um pastiche descartável, entramos em um terreno problemático.
Essa não é a primeira vez que uma trend desse tipo viraliza. Há pouco tempo, as redes sociais foram inundadas por usuários criando seus avatares com IA no estilo das animações da Disney/Pixar. Embora muitos usuários vejam essas criações como um simples entretenimento, essa apropriação pode representar um risco à valorização do trabalho autoral e à preservação da identidade artística.
O Studio Ghibli, reconhecido por sua estética singular e seu impacto cultural, construiu sua identidade ao longo de décadas de trabalho. A apropriação indiscriminada desse estilo, inclusive sem autorização, pode esvaziar o valor da originalidade e afetar negativamente os criadores. Afinal, se uma IA pode reproduzir fielmente o trabalho de um artista sem que ele tenha participação nisso, onde fica a valorização da criatividade humana?
Essa discussão não é nova para Hayao Miyazaki, diretor do Studio Ghibli. Em um vídeo que viralizou, gravado em 2016, Miyazaki participou de uma reunião onde foi apresentado a uma animação gerada por inteligência artificial. A imagem era um experimento para copiar movimentos e aplicá-los em novos projetos. Desde o início, Miyazaki demonstrava incômodo com o que via. Ao final da apresentação, ele reprovou a animação com contundência, afirmando: “Eu nunca desejaria incorporar essa tecnologia ao meu trabalho. Sinto fortemente que isso é um insulto à própria vida.”
Sua reação evidencia um conflito central: até que ponto a IA pode contribuir para a arte sem desumanizá-la? A resposta para essa questão passa por um debate ético profundo sobre a valorização da criatividade humana. E mais: na área da comunicação e do marketing, o uso da IA em trends como a do Studio Ghibli pode trazer consequências danosas às marcas e empresas, por ferir direitos autorais e a propriedade intelectual de artistas e estúdios.
A IA é uma ferramenta extremamente útil e tem acelerado processos em diversas áreas do conhecimento e da indústria. Na comunicação, otimiza a análise de grandes volumes de dados e aprimora a personalização de conteúdos. Na ciência e na medicina, permite descobertas mais ágeis e eficientes. Um exemplo notável foi divulgado pela BBC, que relatou como uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida pelo Google para pesquisas científicas resolveu, em apenas 48 horas, um problema que microbiologistas levaram dez anos para solucionar.
A IA está posta e lutar contra ela é como tentar deter um tsunami. O que é necessário, como em todo novo passo que a humanidade dá, é entender como usá-la de maneira ética. Porque, ao fim e ao cabo, é o legado positivo ou negativo desta ferramenta que será repassado para as gerações futuras.